Fundador

Jerónimo Usera foi um construtor de paz, pois nos diversos lugares e circunstâncias em que a Providência o colocou, semeava sempre bem-estar: escutando, compreendendo, desculpando e actuando. Estava plenamente convencido que não pode existir paz onde estão ausentes a justiça, o amor e a verdade. Podemos dizer que estes três conteúdos constituíram o seu programa de vida. Não há justiça e tão-pouco paz, aí onde não se respeita, nem se reconhece a dignidade da pessoa e onde se pisam os seus direitos; numa palavra, onde a pessoa não é reconhecida como um ser livre e responsável de seus actos e onde faltam os meios espirituais e materiais indispensáveis para recuperar sua dignidade.

Convencido de que Deus o chamava «a fazer o bem na terra», Jerónimo Usera consagrou toda a sua vida a amar a Deus e a fazer o bem aos irmãos. Faz-se bem ao irmão quando se sai ao encontro de suas necessidades. Estas podem ser de diversa natureza: carência de bens, de cultura, de amor, de valores humanos e cristãos.

Todas estas necessidades comovem o coração grande, sensível e serviçal de Jerónimo, e por isso emprega todas as suas energias para encontrar soluções adequadas. Quanto às necessidades materiais conservamos testemunhos fidedignos que afirmam que Usera dava tudo quanto possuía; às vezes o seu próprio alimento, que em várias ocasiões regressou a casa sem alguma peça de roupa e sempre sem dinheiro. É evidente o desprendimento de seu salário em obras sócio-caritativas para combater a ignorância tanto cultural como religiosa, pois segundo ele, é uma das maiores responsáveis dos males da sociedade.

Nas Regras (art. 1,15) lê-se: «Só Deus sabe quantas vezes se falta mais por ignorância, do que por querer!» Noutro lugar, referindo-se aos presos da cadeia de Santiago de Cuba a quem visitou, escutou e com quem dialogou, escreve: «A maior parte deles ignora os rudimentos de nossa Religião santa» e «as faltas, cometidas pelos infelizes detidos, «são o resultado de una educação viciosa e pouco cristã» (Positio, pp.134, 135). O seu coração dedica-se aos mais débeis: os pobres, os escravos, a mulher marginalizada, as crianças órfãs, os jovens que necessitam de protecção e trabalho.

Jerónimo Usera foi um homem de paz porque trabalhou sem descanso, para criar condições para que as pessoas recuperassem a sua dignidade; não se poupou a sacrifícios, quase impossíveis, humanamente falando e empenhou-se em tudo, para a libertação da mulher, dos escravos, dos rabalhadores e dos emigrantes das Antilhas, denunciando o egoísmo e a injustiça de que eram vítimas e promovendo uma formação integral. Jerónimo é ainda homem de paz, porque procura unicamente o bem dos outros; a sua acção é desinteressada, movida pelo amor, por isso partilha da condição dos necessitados.

Na Memória de Fernando Pó, escreve: «decidido a identificar a minha sorte com a das nossas possessões do golfo da Guiné… Pois nenhum outro fim me conduziu àqueles remotos países, senão o de contribuir com os meus escassos conhecimentos e bom zelo para o bem-estar dos seus habitantes simples, dando-lhes a conhecer as vantagens da civilização, quando é acompanhada pela consolação da graça e dos luminosos conhecimentos que proporciona a religião do Crucificado» (Escritos, p. 137).

Podemos dizer o mesmo acerca de Porto Rico, quando o P. Usera se ofereceu voluntariamente para atender os africanos que chegaram à Ilha num barco de escravos, ele afirma que «não duvidou um momento em se estabelecer no meio deles… desempenhando, em benefício dos mesmos, não só o cargo de pastor de almas, mas também de intérprete; Usera colaborava na aplicação dos medicamentos ajudando os ilustres médicos e enfermeiros que os assistiam» (Positio, p. 321).

Usera é um homem de paz e bem se lhe pode aplicar a definição de missionário que ele próprio nos oferece na M.F.P. «O missionário, diz ele, é o enviado do Filho de Deus, que anuncia a paz, que por onde passa difunde a caridade, e que oferece felicidade e ventura aos que o escutam; e só para si reserva os padecimentos».

http://www.amordedios.net/bolusera/bolusera/2007/portugues/3.pdf